Mudar de endereço, cortar (leia-se repicar!) e tingir os cabelos, arrumar um emprego novo a cada trimestre, passar um tempo na praia, sempre em janeiro. Quem não tem um jeito de registrar aquela passagem de fase na vida? Ainda cultivo um medo saudável pelo mês de julho e anos ímpares. Grandes e importantes decisões aconteceram nesses perídodos fatídicos, tanto para o bem, quanto para o não tão bem assim…
E igual à capítulos de novela, a trilha do roteiro da vida não é a gente que escolhe. De repente, aparece quando os créditos do filme do Almodóvar estão subindo, quando se está no ônibus procurando uma estação de rádio decente, ou quando toca naquele restaurante de domingo, durante os causos que conta para a melhor amiga. Aí, para tudo, fica-se com o som na cabeça e não há sossego enquanto o Google, ou o pobre vendedor da sessão de CDs da livraria não fizer o milagre de informar qual é a música. Os cheiros das coisas também são potenciais ressucitadores de lembranças. Mas, nada como a música: a imagem de um momento vem na cabeça na hora! Acontece comigo desde que ganhei meu primeiro vinil, Bad, de Michael Jackson, aos 5.
E fazendo um comparativo dos índices de artistas e suas trilhas marcantes que embalam meu drama mexicano, Marisa Monte é unânime. E precisaria listar muito, tudo aquilo que registrei por culpa de suas canções. E foi ouvindo O Que Você Quer Saber De Verdade, álbum novo, que automaticamente já o intitulei: o som do meu final de ano, com aquele gosto de tudo-o-que-quero-para-2012-amém.
Falar com imparcialidade da criação de um artista quando se acompanha sua trajetória, não dá certo. Cada letra, arranjo, acordes, em determinados locais, parecem ter uma razão de ser e a gente já explica os porquês, como se fosse nosso. Em entrevista no seu site, ferramenta da qual utiliza para a divulgação do novo material, Marisa diz que esté é um trabalho conceitual e intimista, diferente de tudo que já realizou. A produção também é assinada por Dadi, seu fiel escudeiro e lenda da Cor do Som e Novos Baianos, e conta com a participação belíssima de Gustavo Santaolalla (Unplugged Julieta Venegas), nas mais diferentes cordas, desde o violão 12 até cítara.
Canções de tanta propriedade, que falam dela, e ao mesmo tempo, de mim e todo mundo. Uma questão de sintonia, de momento e porque era pra ser. Quem ainda não tem uma música sazonal pra chamar de sua, basta ficar atento aos pequenos gestos, as situações simples, ao ruído aquele, lá distante…que pode te pegar no abrir dos olhos até o recostar da cabeça no travesseiro.
