Na fabriqueta que tece minhas lembranças, a música é a grande engrenagem. Assim como o olfato, ela me faz buscar aquilo que nem no fundo do baú eu sabia que estava. Em muitas ocasiões, lugares diversos, situações que já vivi, sempre ouve uma canção que sublinhou o minuto. E marcou aquela simples passagem, nem que fosse para o mesmo, para o antigo ou para novos ares. Sinônimo de releitura ou virada na página. Quem não sentiu um som ou perfurme que fez lembrar algo marcante?
Minha semana iniciou às 2h da manhã de domingo, no estúdio da Rádio Gaúcha, com o som Pra Gente Fazer Mais Um Samba, de Wilson das Neves. Só de pensar nele, lembro dos olhos malandros me fitando, quando lhe perguntei, em 2008, se estava preparado para subir no palco do Bar Opinião, com a Orquestra Imperial:
- Preparado, hehe…Vambora!
Paixão imediata pelo conjunto da obra. Sorriso claro, olhar sereno, calça de prega alinhada, sapato reluzindo, camisa lisinha, cinto e chapéu na cabeça, daquele jeito…viradinho para o lado. Vontade de ficar perto, arrancando aos poucos, toda a história da música brasileira que com suas baquetas construiu. Ah, não precisou…Estar ali, já me bastava. Um momento de encanto para minhas recordações.
E não é que, Pra Fazer Mais Um Samba Pra Gente, vira mais uma folha do jornal da minha vida? Nova fase em tudo: ideias, pensamentos, planos, comportamentos, metas, olhares. Hora de usar meus óculos, pela primeira vez, com lentes limpas! Momento de cair na real e se permitir ser feliz, dando me conta do que realmente sou, e posso. Tá na hora de vestir os sapatos bicolores e traçar o passo certo na avenida. E já traço. Com a serenidade de Wilson, pois ele sabe das coisas.
